O Espelho da alma

 

 


Texto de Kathia Alves: Sou uma curiosa e atenta leitora de imagens, por isto sempre me dediquei a ela, como ilustradora, pesquisadora iconográfica e estudiosa da historia do livro ilustrado.

Para maiores informações sobre meu trabalho consulte os links:

http://lattes.cnpq.br/7798991919409817

www.salvealves.com

Resumo do artigo: O retrato e a caricatura foram gêneros que sempre fascinaram o homem ocidental, como um espelho mágico que revela os segredos da alma.

No presente texto realizar-se-à uma brevíssima reflexão sobre o longo e lento percurso da representação da beleza e da fealdade no contexto cristão ocidental.

O Espelho Da alma

A partir da primeira cruzada contra os mouros convocada pelo Papa Urbano II ao redor de 1095/96, enraíza-se paulatinamente no mundo cristão ocidental, a ideia de que a beleza era emanação das virtudes da alma.

A conseqüência desta afirmação, é que os defeitos físicos, a fealdade e a diversidade dos traços fisionómicos de outras raças, eram sinais negativos da essência anímica.

Esta linha interpretativa afirma-se durante a Idade Média, através de imagens que falavam da beleza angélica e santificada, em contraposição às representações disformes ou burlescas dos vícios e de outras características humanas. Tais valores redesenharam a realidade, distinguindo e separando os indivíduos em dois blocos: belos e bons; imperfeitos e pérfidos.

Dentro desta dinâmica; hebreus, mouros e todos aqueles considerados diversos ou antagonistas aos modelos e aos valores morais da igreja, eram frequentemente representados pela sociedade cristã como figuras grotescas, personificação do diabólico.

As diferenças culturais, raciais ou fisionómicas, amplificadas pelas expressões das emoções, pelas mímicas dos gestos, unido ao preconceito de que as paixões da alma modelavam ou transmutavam a forma do corpo, colaboravam para enriquecer as mil faces do maligno, que se manifestava numa grande variedade de “imaginerias do demónio”.

Todavia, as figuras burlescas, anteriores ao século XV eram substancialmente alusões alegóricas dos estados idealizados da alma. Nas miniaturas e nos afrescos anteriores aquele período, não se encontravam nas figuras, uma verdadeira descrição do caráter do individuo, porém, identificavam-se sinais que evocavam a negatividade dos personagens. Somente ao final do século XV, quando a prática do retrato se transforma num verdadeiro gênero artístico, agregando sobre a estrutura “physiognomica”, uma série de outras informações como: perfil psicológico, condições culturais, temporais e espirituais, é que se projetará nos traços físicos dos personagens retratados a sutil essência do caráter.

A partir deste momento começam a surgir os “retratos ditos de carga”, assim chamados por serem carregados de conotações densas, que tinham como principal compromisso exaltar a negatividade, representando na maioria das vezes, danados sofrendo as penas do inferno, heréticos, carnífices maltratando inocentes, enfim, todos os matizes de degradações morais da humanidade.

Foi na Europa do norte, daquele período, onde o clima rígido constringia as pessoas à introspecção e à convivência em ambientes fechados, que se propagaram os retratos carregados pelas decadências humanas.

Olhos esbugalhados, sobrancelhas encarquilhadas ou arqueadas, bocas escancaradas e desdentadas, septos e narinas deformados, são algumas das características que distinguem os pérfidos algozes representados por Hieronymus Bosch na crucificação de Jesus.

Estes retratos que desejavam espelhar os vícios e as emoções da alma, foram a chave de um tipo de pintura que deu origem à caricatura.

Enquanto linguagem de representação da figura, a caricatura vem formalmente a luz no final do século XVI e nos primeiros anos do século XVII. Todavia, esta expressão figurativa inspirar-se-à nas obras do passado, em excelentes artistas do norte Europeu, como Albrecht Dürer, o velho Lucas Cranach, mas se deixará persuadir também pelos magníficos esboços críticos de Leonardo da Vinci, pelos estudos de Giambattista della Porta autor “De Humana Physiognomia” e outros fantásticos mestres observadores e estudiosos da natureza humana.

Desde da sua origem, a caricatura, mais do que a arte do retrato, assumirá uma função social de ressaltar as sombras da alma, as contradições do caráter humano e da sociedade que o homem constrói. Este género artístico, se alargará nos séculos nas formas de sátira de costume e sátira política, encontrando o seu esplendor nos traços elegantes de Daumier e de Toulouse Lautrec.

 

Fig. 1 – Leonardo da Vinci (1452-1519)


Leonardo da Vinci, caricatura de cinco cabeças, 1490. Atualmente na “Galleria dell’Accademia” de Venezia.

Leonardo da Vinci:http://www.youtube.com/watch?v=15zMLtqxwDQ&feature=related

 

Fig. 2 – Hieronymus Bosch (1453-1516)


Hieronymus Bosch, A subida ao Calvario, 1515/1516, Atualmente no “Grand Musée des Beaux-Arts” em Gand, Belgica.

Hieronymus Bosch: http://www.youtube.com/watch?v=IpzgQ2aCSqc

 

Fig. 3 – Albrecht Durer (1471-1528)


Albrecth Durer, Cristo entre os doutores, 1506. Atualmente no “MuseuThyssen-Bornemisza”, Madrid

Albrecth Durer: http://www.youtube.com/watch?v=3uBSzOHT87w

 

Fig. 4 – Lucas Cranach o Velho (1472-1553)


Lucas Cranach o Velho, Cristo e a adultera, 1553, atualmente no Museu de Arte de Budapeste.

Lucas Cranach o Velho: http://www.youtube.com/watch?v=duNZCjidHOI&feature=related

 

Fig. 5 – Giambattista della Porta (1535-1615)

 Giambattista della Porta em “De Humana Physiognomia”, 1586

Giambattista della Porta: http://www.youtube.com/watch?v=EnuOvCtVBl8

 

Fig. 6 – Honoré Daumier (1808-1879)

 


Honoré Daumier, Crispin e Scapin, 1863/ 65. Atualmente no “Museu d'Orsay”, Paris, France

Honoré Daumier: http://www.youtube.com/watch?v=dPDdUvmQLgQ

 

Fig. 7 – Henri Toulouse Lautrec (1864-1901)


Henri Toulouse Lautrec, Salon de Rue des Moulins, 1894. Atualmente no “Museu Toulouse-Lautrec”, Albi - França

Toulouse Lautrec: http://dailymotion.virgilio.it/video/x363o9_henri-de-toulouse-lautrec