VER & SABER


O espelho do ego

 

O Espelho do Ego.

Texto de Kathia Alves: Ter a sensibilidade de apreciar a beleza aonde quer que ela esteja, é um verdadeiro “dom”.

Maiores informações sobre o meu trabalho acesse:

http://lattes.cnpq.br/7798991919409817

www.salvealves.com

Resumo:

O presente artigo desenhará um breve percurso para a reflexão dos principais fatores que concorreram para que a arte do retrato tivesse seu apogeu no século XV.

O Espelho do Ego.

A antiga tradição clássica, greco-romana de representar realisticamente a figura humana, retorna com renovado vigor entre os séculos XIV e XVI.

Neste arco de tempo, definiram-se todos os cânones de representação da figura que influenciarão o género do retrato nos séculos vindouros.

É oportuno ressaltar que neste período, tal como na antiguidade clássica, o florescimento da arte do retrato coincide com a afirmação do “individuo” numa sociedade que cresce e se enriquece, graças à ação humana.

Isto verificar-se-á claramente a partir do século XII, quando a sociedade feudal emerge pouco a pouco da depressão das invasões barbáricas que provocaram a queda do império romano e caracterizaram a alta idade média.

Apesar dos episódios de peste, guerras e carestias, o homem do século XV é plenamente consciente do seu potencial, da importância do próprio trabalho para o incremento da nova dinâmica urbana, e não se submete as eventualidades, procurando construir o próprio destino.

A pesquisa, o progresso técnico, tecnológico e económico que favoreceu a acumulação do capital mercantil e gerou a classe burguesa, fez com que o homem se sentisse co-autor da criação divina.

Os grandes mestres da pintura, como Jan van Eyck, entraram nesta dinâmica, dedicando minuciosa atenção ao virtuosismo técnico e elaborando uma narrativa pictórica cientifica, aderente à realidade. Porém, serão as gerações de artistas do final daquele século a darem vida às obras através de cuidadosos estudos de perfis psicológicos e morais, fazendo com que as imagens evocassem a energia vital dos personagens e do ambiente social no qual actuavam.

Esta nova perspectiva antropocêntrica, fortalece o “ego” dos indivíduos que durante séculos foi reprimido pela religião de estado, que limitava a capacidade humana em função de um modelo teocêntrico, no qual o homem era apenas um espectador do operar Divino.

Diante desta realidade, a arte do retrato, tal como a assinatura caligráfica do próprio nome, em substituição dos carimbos que se usavam nos documentos, demonstrarão a consciência da “personalidade”.

Esta revisão de valores será a base de um primeiro humanismo, terreno no qual frutificará a recuperação da cultura clássica, potencializará as artes e as ciências, como sintomas de um percurso mental que se concluirá no renascimento italiano.

No contexto renascentista que distinguirá alguns centros do norte da península itálica e influenciará outras cidades através de intercâmbios, o retrato deixará de ser uma prerrogativa da nobreza ou da hierarquia eclesiástica, para consagrar indivíduos que desempenham uma função na engrenagem sócioeconómico, exaltando o poder de uma classe emergente.

Os retratos de homens de estudo, como o matemático Luca Pacioli, perpetuado por Jacopo de’ Barbari; o marinheiro que sorri de Antonello da Messina; o comerciante rodeado de cartas de Hans Holbein o jovem, ou autoretrato do artista em meio a um grupo de nobres como o que realizou Nuno Gonçalves, serão testemunhas imortais de um período de grande vitalidade intelectual e de consciência da própria potencialidade humana.

Estas imagens, além de valorizarem a semelhança física, exaltam a “personalidade”, através da expressão do semblante, da intensidade do olhar, da linguagem corpórea, da mímica dos gestos, dando particular relevo à posição da figura no ambiente e aos objectos ou símbolos que o identificavam socialmente.

A dignidade do individuo defendida pelas teorias filosóficas renascentistas, atenuam a questão da beleza e da fealdade. Embora, as idéias sobre os conteúdos expressivos da fisionomia, das classificações de tipos humanos em função das características harmônicas ou desarmônicas da alma, persistirão, e Leonardo da Vinci, será entre outros, um atento observador destas peculiaridades. Pois que, Leonardo compartilhava as teorias de Luca Pacioli, autor da De Divina Proportione, que defendia a tese na qual a beleza na natureza, tal como no corpo, na arquitetura e na tipografia, era regida pela “divina proporção”, o desvio deste conceito, gerava o desequilíbrio e a fealdade.

Porém a linha interpretativa que associava beleza à inteligência e integridade moral, em contraposição, a fealdade associada à estupidez e à decadência moral, expandirá-se-á no século XVI, através da linguagem expressiva das obras dos irmãos Agostino e Annibale Carracci. As inúmeras composições de teatralização caricatural e maneirística realizadas pelos irmãos Carracci, propunham retratos que revelassem o espelho da alma, o real caráter do individuo, por vezes dissimulados pelas máscaras das convenções e do poder.

Fig. 1)- Jan van Eyck (1390 – 1441)

Jan van Eyck.

O Homem com o turbante, (identificado como auto-retrato do artista), 1433.

Atualmente na “National Gallery”, Londres – Inglaterra

Jan van Eyck:

http://www.youtube.com/watch?v=GbQThGGKefU


Fig. 2)- Jacopo de’ Barbari (entorno a 1440 – 1515)

Jacopo de’ Barbari, retrato de Luca Pacioli, 1495.

Matemático renascentista autor das obras Summa de arithmetica, geometria, proportioni et proportionalità e De Divina Proportione com ilustrações atribuídas a Leonardo da Vinci.

Atualmente no “Museo Capodimonte”, Nápoles – Itália.

Animação de uma gravura de Jacopo de’ Barbari, com panorama de Veneza realizado na modalidade vôo de pássaro.

http://www.youtube.com/watch?v=03xPvV3ddEU


Tratado Matemático De Divina Proportione de Luca Pacioli com algumas ilustrações do mestre Leonardo da Vinci.

  

De Divina Proportione: http://www.youtube.com/watch?v=xjEC4Vwa9BI


Fig. 3)- Antonello da Messina (1430 – 1479)

Antonello da Messina.

O homem que sorri ou O marinheiro que sorri (1465-70).

Atualmente no “Museo Mandralisca”, Cefalù, Sicília – Itália

Antonello da Messina:

http://www.youtube.com/watch?v=LwDFy22pa-A


Fig. 4)- Hans Holbein o jovem (1497 –1543)

Hans Holbein o jovem.

Retrato do mercante Georg Gisze, 1532.

Atualmente no “Staatliche Museen”, Berlim – Alemanha

Hans Holbein o jovem:

http://www.youtube.com/watch?v=YmLIMs8UiFg


Fig. 5)- Nuno Gonçalves século XV

Nuno Gonçalves, importante artista português da segunda metade do século

XV, actuou nas cortes portuguesa, espanhola e holandesa.

Os historiadores da arte, atribuem ao mestre Nuno Gonçalves os seis painéis

dedicado à S. Vicente de Fora, identificando seu auto-retrato entre

ilustríssimos personagens da corte portuguesa, como o rei Dom Henrique “O

Navegador”.

Atualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa – Portugal.

 

Fig. 6)- Annibale (1560 – 1609), Agostino (1557 – 1602)

e Ludovico (1555 – 1619) Carracci

Annibale Carracci. Mangiafagioli, Comedor de feijão 1584.

Atualmente na “Galleria Colona”, Roma – Itália.

Agostino Carracci. Desenho de nanquim sobre papel.

Atualmente no “Nationalmuseum, Estocolmo”, Suecia.

Segundo os históricos da arte, a caricatura nasce entre o final do Cinquecento início do Seicento no ambiente dos irmãos Carracci.

Annibale e Agostino junto ao primo Ludovico, realizavam retratos com a intenção de revelar o real caráter dos indivíduos, escondidos pelas mascaras das convenções e do poder.

Agostino, Annibale e Ludovico Carracci:

http://www.youtube.com/watch?v=ESl7Eyhd0vs





Escrito por profª Sheila Suzano às 19:01
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