O Pincel do Carrasco



Texto de Kathia Alves: O minucioso trabalho de pesquisadora iconográfica e estudiosa da história do livro ilustrado leva-me a ouvir a voz que emana das imagens como se fosse um eco dos pensamentos escritos.

Para maiores informações sobre meu trabalho consulte os links:

http://lattes.cnpq.br/7798991919409817

http://www.salvealves.com/


Resumo do artigo: Nem sempre a arte celebrou a memória de homens ilustres, algumas vezes as pinceladas impiedosas de artistas mercenários condenaram homens à morte.

No presente texto realizar-se-à um extrato sobre a arte do retrato nas condenações infamantes na Itália dos séculos XIV e XVI.

O Pincel do Carrasco

A idéia de “extimatio” dos antigos romanos, ou seja a importância do indivíduo no seio do grupo, influenciou profundamente o conceito de “fama” e de “infâmia”, que penetrou no tecido cultural das populações dominadas pelo império, passando da Idade Média à Idade Moderna, chegando a sensibilizar os nossos dias.

Este conceito incidirá com particular intensidade no código de honra dos cavalheiros medievais, condicionando as ações da nobreza, sem poupar porém as demais categorias sociais.

No norte da Itália setentrional, o conceito de fama e infâmia encontrou eco nos sermões dos religiosos do mundo rural e na poesia humanística, inspirada nos modelos da antiguidade clássica, tanto apreciada pelos artistas e eruditos do século XIV e XV.

Entre os estudiosos da literatura latina, da filosofia e cultura clássica daquele ambiente, destaca-se o poeta Francesco Petrarca, que através dos seus versos recordava às gerações que, tanto a fama como a infâmia podem ser vencidas somente

pelo tempo, porque enquanto as ações e as obras positivas ou negativas permanecerem acesas na memória da humanidade, as imagens destes conceitos permanecerão vivas.

Assim sendo, a imagem da boa reputação era uma chave vital para a aceitação do indivíduo e afirmação dos seus direitos na sociedade.

Quando a opinião pública reconhecia as qualidades do indivíduo, fosse pela função que ocupava, pelas obras ou ações realizadas, pelo ambiente que frequentava ou pela situação econômica: era-lhe conferida a estima popular, e a fama garantia-lhe credibilidade e favores.

A imagem positiva concedia ao indivíduo o direito de ocupar cargos de confiança, ser testemunha em processos, receber empréstimos, possuir propriedades, em suma, favorecia o pleno exercício de cidadania. Em certos casos, o reconhecimento da boa

reputação era celebrado publicamente com monumentos, estatuas, retratos em igrejas, prefeituras e universidades.

Porém, quando a reputação era enlameada por traição política, evasões fiscais, banca rota, fraude, furto ou assassinato, a opinião pública negava ao indivíduo os direitos civis e jurídicos, condenando-lhe a morte ou à marginalização, que era como morrer em vida, pois o réu perdia os direitos de cidadania e as possibilidades de sobrevivência.

A imagem do indivíduo devastada pela infâmia projetava-se como um fantasma sobre os familiares, sobre amigos e conhecidos, que para sobreviverem eram obrigados a distanciar-se do réu.

O condenado que conseguia fugir em exílio, procurava refugiar-se no anonimato.

Porém, da mesma maneira que o poder público valia-se da arte para comemorar os cidadãos ilustres, as autoridades jurídicas interessadas em manter viva na memória dos indivíduos, a infâmia do condenado, comissionavam a artistas de segunda grandeza, o retrato do infamado. Esta pena por “contumacia” ou em linguagem corrente, por ausência do réu, era executada com pinceladas vivazes sobre os muros externos de um edifício público ou na fachada da casa do condenado.

O carrasco, armado de palheta e pincel, protegendo a sua identidade no manto da noite, realizava com perícia e rapidez a imagem do condenado sofrendo a sansão em poses grotescas ou ofensivas.

O escárnio e o horror eram alguns dos principais elementos deste tipo de pena, de modo particular, no caso dos réus por traição, representados frequentemente como aqueles que traíram e renegaram Cristo, portanto enforcados como Judas ou de cabeça para baixo como no martírio de S. Pedro.

Por isto, a representação mais comum dos traidores era pendurados pelos pés ou pelos órgãos genitais, enquanto torturados por figuras diabólicas, como se vê no detalhe do afresco do inferno realizado por Giotto na Capela dos Scrovegni em Pádua e no particular dos idolatras no afresco do inferno de Giovanni da Modena, na Capela Bolognini da Basílica de São Petrônio em Bolonha. Outra imagem de traidor muito difusa no período è a figura do Enforcado no jogo do Tarô, como se encontra no maço do século XV que pertenceu a família Visconti-Sforza de Milão.

Porém, nem sempre as pinturas infamantes eram representações de penas não consumadas. Muitas vezes o pincel do carrasco descrevia as terríveis torturas e a morte do réu, com a intenção de prolongar a pena da infâmia sobre a imagem do morto, utilizando-o como exemplo moralizador para a população.

Estas imagens, que podiam permanecer nos muros dos prédios por muitos anos, podiam também serem julgadas e reavivadas com tintas frescas para se manterem vivas por longo tempo, ou ao contrario, serem anistiadas e finalmente canceladas.

A arte que imortalizou o retrato e a fama de ilustres cidadãos através de pinturas, esculturas e medalhas, realizadas por grandes artistas, condenou também à infâmia inúmeros outros cidadãos com terríveis retratos denegridores, executados com severas pinceladas de artistas menosprezados, diminuídos pela função de carrasco.

Porém a roda da fortuna concedeu alguns indultos a estes artistas, como é o caso de Andrea del Sarto, que realizou alguns desenhos para pinturas infamantes ao serviço da justiça. Contudo, contrariamente às suas vitimas, o artista recebeu o reconhecimento de grande mestre da pintura, gozando de fama entre as gerações que seguiram seu trabalho.

Fig. 1 e 2)- Giotto di Bondone (1267-1337).

 

 

Detalhe do inferno, no afresco do Juízo Universal de Giotto na Capela dos Scrovegni

em Pádua, do inicio do século XIV.

Afrescos de Giotto na Capela dos Scrovegni.

http://www.youtube.com/watch?v=1UxvbgoIeXg


Fig. 2)- Giotto di Bondone

 

 

Fig. 3)- Giovanni da Modena (entorno a 1409-1455).

 


Particular dos idolatras no inferno, no afresco de Giovanni da Modena, na Capela

Bolognini na Basílica de São Petrônio em Bolonha.

 

 

 

Fig. 4)- O enforcado conhecido como a carta do “Impichato” do maço de Tarôs da

família Visconti-Sforza, realizado na metade do século XV.

Atualmente na Coleção da Pierpont Morgan, em NY. USA.

 

 

 

 

Fig. 5)- Andrea del Sarto (1480-1530)

 

   

 

Esboço de homens pendurados pelo pé.

Atualmente no “Gabinetto dei Disegni e Stampe degli Uffizzi” Florência – Itália.

Andrea del Sarto.

http://www.youtube.com/watch?v=CvFC99hfzX4&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=OFTqltyPR84&feature=related